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Artigos e reflexões › 27/06/2015

(Breve ensaio sobre sete advertências do papa Francisco) – parte 1 de 4 textos

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(Breve ensaio sobre sete advertências do papa Francisco) – parte 1 de 4 textos

Em 2003, o médico e romancista afegão, Khaled Husseini, publicou o romance que celeremente correu o mundo, intitulado: “O caçador de pipas”, que conta a história do convívio entre dois meninos, ressaltando episódios quase heroicos, como também registrando em palavras a profundidade de sentimentos que machucam, roubam e matam, como, por exemplo, ciúme e inveja. Em dado momento, o autor faz uma bonita reflexão sobre o roubo, chamando-o de pecado, aliás, segundo o escritor, o único pecado existente. “Qualquer outro – frisa Husseini – é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida. Está roubando à esposa, o direito de ter um marido, roubando dos filhos um pai. Quando mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando trapaceia, está roubando o direito à justiça…”. Husseini evidentemente, não é teólogo, é romancista, mas o que disse se posiciona ao lado do que é verdadeiro. Teria o papa Francisco lido esse livro, quando ainda cardeal na capital portenha? É possível. O fato é que por sete vezes na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho – o papa adverte:

NÃO NOS DEIXEMOS ROUBAR…

Será um grande desastre e uma enorme derrota se nos deixarmos roubar aquilo que temos de mais precioso. No nosso caso de cristãos, ao falar de roubo, não estamos falando de pouca coisa. Estamos falando de toda riqueza espiritual da Igreja por ela herdada de Jesus Cristo. A Igreja é a detentora e depositária de toda a plenitude dos meios de salvação, como diz claramente o Concílio Vaticano II, em seu Decreto sobre o ecumenismo.

Roubo é subtração de bens que pertencem a outrem, até mesmo usando de violência.

Ou será que em mim, em nós, há sinais doentios de cleptomania, em que manifestamos a capacidade de tirar riquezas de nós mesmos só para nos sentir livres de compromissos de carregar as mais belas riquezas interiores e as cruzes que se nos apresentam naturalmente ao longo dos nossos dias?… Que o Espírito Santo nos torne capazes de não nos fecharmos em nós mesmos, mas de enfrentar a vida com coragem contando com os dons da fé e da esperança sempre.

 

 

Primeira advertência: Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário

Nada mais positivo do que o cristão falar de entusiasmo missionário. Os que se dedicam a estudar a raiz das palavras e o seu percurso semântico através do tempo, dizem que etimologicamente entusiasmo significa “ter um deus interior que impulsiona”. Pois bem! Também nada melhor que isso porque, de fato, nós cristãos temos, não um deus imaginário, mas um Deus pessoal, um Deus que intervém na História e até enviou seu Filho na Plenitude dos Tempos para nos impulsionar para a missão. Ele nos envia: “Vão”. “Ensinem”. “Batizem”. “Façam observar tudo o que ordenei”. O nosso Deus interior, o Deus-entusiasmo tem nome. É Jesus Cristo, junto com o Pai que cria e recria e o Espírito Santo que sopra sem cessar sobre a obra da criação para santificá-la, acalentá-la e fazê-la crescer. Continuemos a falar do entusiasmo missionário. Ele é um grande tesouro. Um tesouro que, no entanto, “carregamos em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse incomparável poder pertence a Deus e não é propriedade nossa” (2Cor 4,7). O entusiasmo missionário, em verdade, é assim: “Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos; somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados” (2 Cor 4, 8-9). São Paulo fala e assim procede. Também o papa Francisco assim fala e assim dá forte testemunho: “Para manter vivo o ardor missionário, é necessária uma decidida confiança no Espírito Santo, porque Ele “vem em auxílio da nossa fraqueza” (Rm 8,26). Mas esta confiança generosa tem de ser alimentada e, para isso, precisamos invocá-lo constantemente. Ele pode curar-nos de tudo o que nos faz esmorecer no compromisso missionário […]. Não há maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Espírito… permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser” (Evangelii Gaudium, n. 280).

Uma constatação: Para que alguém chegue a roubar-nos o entusiasmo missionário é preciso que o tenhamos agora ou que o tenhamos tido no passado, pois ninguém nos roubará o que não possuímos.

Ainda insistimos: o que é ter entusiasmo missionário? Identificando-nos com o Cristo é:

– dar a vida por amor;

– ajudar a tantas pessoas a curar os males de seu corpo e de sua alma;

– ajudar a tantas pessoas a morrer em paz;

– ajudar a tantas pessoas a levantar-se depois que caíram escravas de diversos vícios;

– difundir, comunicar  valores em ambientes hostis;

– oferecer sua vida e seu tempo com alegria (cf. Evangelii Gaudium, n. 76).

O papa Francisco reconhece que até mesmo a globalização apresenta valores e oferece possibilidades, contudo, também arrasta um volume incrível de forças contrárias, capazes de combalir-nos. Assim, por exemplo, por parte de agentes pastorais há uma preocupação exagerada na busca de espaços pessoais “que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida” – diz o papa latino-americano. Nota-se “uma acentuação do individualismo, uma crise de identidade e um declínio de fervor” (n. 78).

Em meio à cultura midiática há agentes pastorais que “desenvolvem uma espécie de complexo de inferioridade que os leva a relativizar ou esconder sua identidade cristã e […] assim não se sentem felizes com o que são nem com o que fazem, não se sentem identificados com a missão evangelizadora (Evangelii Gaudium, n. 79). O que pode roubar o entusiasmo missionário é esse relativismo. Trava-se verdadeira batalha entre o entusiasmo missionário  e esse ladrão que quer levá-lo embora. O ladrão, astuto como é, até negocia. Leva embora o entusiasmo e oferece em troca mais tempo livre para preencher a zona de conforto. Dessa forma, o entusiasmo missionário esmorece e deixa de ser “uma resposta alegre ao amor de Deus” (Evangelii Gaudium, n. 81). O papa sugere o que ele vive: “uma espiritualidade que impregne a ação e a torne desejável” (n. 82).

Trindade santa, por ti, todos fomos criados, por ti, todos somos amados; eu e muitos outros fomos lavados no Batismo e confirmados pelo Dom do Espírito. No entusiasmo missionário, eu e outros estamos sujeitos a vacilações, a retrocessos e a desistências. Quando deixamos de vigiar como devíamos, nos damos conta de que ladrões e ladras, levaram o nosso entusiasmo missionário ou o deixaram ferido à beira do caminho. Senhor, somos filhos e herdeiros teus. Não permite esse nosso grosseiro descuido. Sustenta-nos no alto do serviço para encontrarmos alegria nos desafios e coragem ao encará-los em companhia de outros irmãos e irmãs.

Clemente Raphael Mahl
rafaeli@uol.com.br
Conselho Nacional do Laicato do Brasil – Região Episcopal Sant´Ana – SP

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