Paróquia Nossa
Senhora Aparecida

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Artigos e reflexões › 03/07/2015

(Breve ensaio sobre sete advertências do papa Francisco) – parte 2 de 4 textos

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Segunda advertência: Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização

Seja-nos permitido começar pelo inverso. O que marca a tristeza?  Instalar-se como centro do mundo e mesmo assim ainda sentir-se incomodado, nada plenificado. Tristeza é isolamento. É impor minha opinião porque ela vale mais. Minhas ações merecem todo o destaque dentre as demais. Minhas decisões são as melhores. Tristeza é a busca de prazeres fugazes. Uma vez encontrados, vividos, não satisfazem e tem-se a necessidade de buscar outros mais. Outros mais, que também não saciam. A alegria, aquela sensação de estar lidando com algo grandioso, que satisfaz, que sacia, está na outra ponta. É de modo todo especial um dom com que conta o cristão. A alegria tem sua sustentabilidade. O papa Francisco, no dia mundial das missões, em 8 de junho de 2014, disse muito bem: “O Pai é a fonte da alegria. O Filho é a manifestação e o Espírito Santo é o animador”. Jesus disse aos apóstolos que ele iria morrer, mas que voltaria ressuscitado. “Vocês ficarão tristes, mas a tristeza de vocês se transformará em alegria” (Jo 16,20). E dois versículos adiante: “Quando vocês tornarem a me ver, vocês ficarão alegres, e essa alegria ninguém tirará de vocês” (v.22). Nesse espírito os bispos da América Latina e do Caribe souberam se expressar assim: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber: tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (Documento de Aparecida, n. 29). Dito isso, dá para entender o que é a alegria da evangelização e o que se há de fazer para que ninguém a roube. Pois “em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com ele e impelir-nos com a força do seu Espírito… a iniciativa pertence a Deus ´porque Ele nos amou primeiro´(1Jo 4,19) e é ´só Deus que faz crescer´ (1Cor 3,7).

         A quem deve visara alegria da evangelização? “A alegria do Evangelho é para todo mundo, não se pode excluir ninguém” (Evangelii Gaudium n. 23). No entanto, em outro lugar o papa emenda: “…mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, “àqueles que não têm com que retribuir” (Lc 14,14; Evangelii Gaudium n. 48). Qual a razão disso? É que a “opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica” (Evangelii Gaudium n. 198).

E qual deverá ser o espírito da nova evangelização, além de ser alegre por ser exercida sob a iniciativa do Senhor? “Quando se diz que uma realidade tem “espírito”, indica-se habitualmente uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária […]. “Uma evangelização com espírito é uma evangelização com o Espírito Santo, já que Ele é a alma da Igreja evangelizadora” (Evangelii Gaudium n. 261).

Não se pode dizer que a evangelização, hoje, seja mais difícil do que em outros tempos. O papa não acha bom que pensemos assim. O papa tem o pensamento de que hoje é diferente, não mais difícil (cf. n.263).

Se nos roubarem a alegria da evangelização, nos roubarão o Mestre, Jesus Cristo. E nos sentiremos isolados, desamparados, sós como Maria Madalena. Para dois apóstolos ela disse: “Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram ” (Jo 20,2). E depois para os anjos, justificando seu choro: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o colocaram” (Jo 20, 13). Pior aqui. É-nos roubado o Senhor ressuscitado. É-nos roubada a alegria. A razão da nossa alegria. Diz o Catecismo da Igreja Católica que “a alegria é um dos frutos do Espírito, os quais são perfeições que o Espírito Santo modela em nós, como primícias da glória eterna” (n. 1832).

Para que isto não nos aconteça o ideal cristão convida sempre a superar a suspeita, a desconfiança permanente, o medo de sermos invadidos [roubados] (cf. Evangelii Gaudium n. 88). “O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro” […], com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado” (n. 88).

 

Rezemos junto com o papa, com as palavras do papa:

“Espírito Santo, peço-lhe que venha renovar, sacudir, impelir a Igreja numa decidida saída para fora de si mesma a fim de evangelizar todos os povos” (Evangelii Gaudium n. 261).

 

 

Terceira advertência: Não deixemos que nos roubem a esperança

O roubo da esperança é a pior coisa que nos pode acontecer. Com a desesperança o que se pode produzir? No dizer do papa, a “desertificação espiritual”. Mas o que é isso? É “fruto do projeto de sociedades que querem construir sem Deus ou que destroem as suas raízes cristãs” (Evangelii Gaudium  n. 86). Ainda assim não está tudo perdido. Deus não permitirá. Olhe-se para a natureza. Hoje, até do xisto, uma rocha do deserto, se extrai petróleo. Lá no deserto, diz o papa, “somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o cântaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, se nos entregou como fonte de água viva” (n. 86). Por isso o veemente apelo: “Não deixemos que nos roubem a esperança” (idem).

Vivendo no mundo, comunicando-nos com o mundo “somos convidados a dar a razão da nossa esperança” (Evangelii Gaudium n. 271), porém, sem o dedo em riste contra quem quer que seja, mas com humildade e respeito. Foi assim que os apóstolos “ganharam a simpatia de todo o povo” (At 2,47; cf.4.21.33; 5,13). Contudo, todo cuidado é pouco. “Pode acontecer que o coração se canse de lutar, porque, em última análise, se busca a si mesmo num carreirismo sedento de reconhecimentos […], então a pessoa não baixa os braços, mas já não tem garra, carece de ressurreição” (Evangelii Gaudium n. 277). “Se a nossa esperança é somente para esta vida [ou nem isto], nós somos os mais infelizes de todos os homens” (1Cor 15,19).

O Reino de Deus jamais se extingue, mas se desenvolve como pequenina semente “que cresce no meio do joio (cf. Mt 13, 24-30) e sempre nos pode surpreender positivamente: ei-la, que aparece, vem outra vez, luta para florescer de novo. A ressurreição de Cristo produz por toda parte rebentos deste mundo novo; e, ainda que os cortem, voltam a despontar, porque a ressurreição do Senhor já penetrou a trama oculta desta história; porque não ressuscitou em vão. Não fiquemos à margem desta marcha da esperança viva” (n. 278).

 

Ó Senhor, quem somos sem esperança? Infelizes, galhos secos, becos sem saída, viventes sem sentido, sem destino, sem razão para amar, abraçar, doar-nos. Sobra-nos a escuridão como horizonte. Como o papa Francisco concluiu a sua recém-publicada encíclica ecológica, assim podemos nós concluir o nosso clamor elevado ao Senhor: “caminhemos cantando. Que nossas lutas  e nossas preocupações por este planeta não nos tirem a alegria da esperança” (Laudato si, n. 244). Senhor, unidos a ti e à tua serva, Santa Teresa de Jesus, ousamos dizer ainda: “Espera, ó minha alma, espera. Ignoras o dia e a hora. Vigia cuidadosamente, tudo passa com rapidez, ainda que tua impaciência torne duvidoso o que é certo e longo um tempo bem curto. Considera que quanto mais pelejares, mais provarás o amor que tens a teu Deus e mais te alegrarás um dia com teu Bem-Amado em gozo e deleite que não podem ter fim” (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1821).  

 

Clemente Raphael Mahl
rafaeli@uol.com.br
Conselho Nacional do Laicato do Brasil – Região Episcopal Sant´Ana – SP

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